segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Mapa de coisa nenhuma

Talvez um desvio ali ou um caminho estreito acolá possam lhe levar à praia.
Quem sabe ele não dá direto no mar?
Quem sabe ele não dá direito ao oceano?
Talvez pra chegar até a cachoeira você tenha que passar pelo limo que encobre as pedras.
Se pegar a rota da esquerda é capaz de dar em um Éden. Ou será pela direita?
Descambar em um chão firme de pedregulhos é mais provável, no entanto.
Então, pega o mapa e olha a trilha indicada.
Dá pra ler sim, é só esfregar os olhos e tirar a poeira da rota - pelo menos é o que dizem.

Subir por ali você não tinha pensado, não é?
Mas não há atalhos, é bom que fique sabendo.
O caminho é nu, cru. De indas e vindas ele está cheio.
Vá...

Ih! Já foi!

Passaram-se 12 meses.

Ao chegar lá no cume do rochedo, percebeu: a praia está mais longe do que previa.
E há serras, com cumes imensamente mais elevados. Apontam todos para o céu. Invariavelmente.
Esse mapa dá é em coisa nenhuma.
Ou é você que não o sabe ler?

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Mais uma San Galo na música

Com essa leve diferenciação no sobrenome (a separação em duas palavras), Mônica, irmã de Ivete Sangalo, lança Confissões de Madame, seu primeiro trabalho. Autoral, CD e DVD chegam ao mercado através da Universal Music


“Sou uma pessoa muito rigorosa pra avaliar qualquer coisa que tenha relação com a música. Agora me senti preparada”. Assim, se qualifica Mônica San Galo ao falar de “Confissões de Madame”, seu primeiro registro musical. Aos 46 anos, a irmã de Ivete Sangalo chega ao mercado fonográfico pelas portas da frente, afinal, o CD foi gravado ao vivo no ano passsado, no Teatro Castro Alves, e deu origem também a um DVD, ambos lançados pela Universal Music.

“Sempre fui cantora,” diz ela, que estudou música na Universidade Católica de Salvador antes de se formar em Direito pela mesma instituição. “Mas só pensei em seguir uma trilha definitiva depois de criar minha filha”, que agora tem 18 anos. Deixando de lado o papel de mãe, ela vive uma madame, personagem que encarnou para dar cabo ao desejo de fazer o que tanto gosta. A cantora escolheu brincar com o termo “Madame” porque assume que é esse o momento em que se encontra. “A praxe é você começar na música muito cedo e eu estou numa fase mais madura”.


O resultado do amadurecimento é um registro quase todo autoral composto especialmente para a gravação. Apenas duas faixas do disco são dela em parcerias: “Choro Novo, Amor Antigo”, com Duarte Velloso, faixa que tem participação do Grupo Jacarandá, e “Tango Para Madame”, com Saulo Gama. Além disso, há a regravação de “Fanatismo”, poema musicado pelo cantor cearense Raimundo Fagner, no DVD. E como diz o título do registro audiovisual, ela considera o trabalho confessional porque o repertório, em ordem cronológica, fala de suas facetas como mulher: a mãe, a cantora, a romântica, a cheia de fantasias, a observadora.

Ouvinte assídua de rádio AM, ela diz que tudo é inspiração para sua música. “Ouço FM também, mas ela é filha da AM”, faz questão de dizer. Ritmos como o choro, a bossa nova e até o “iê iê iê” a influenciam. Nana Caymmi, Clara Nunes, Angela Maria e Roberto Carlos são algumas das referências para ela.

Com fortes toques teatrais, o DVD é quase uma “opereta de MPB”, brinca Mônica. Apesar de não ser atriz e nem ter pretensão disso, “fiz tudo na base do empirismo”, a dramaticidade nas canções e na cenografia, que exibe mesmo uma madame em seu quarto, foi escolhida para chamar a atenção do público. Entre os destaques do repertório estão “Samba da Vizinha” e “Condicional”, com participação de Lazzo Matumbi. Nos ritmos, uma pluralidade que vai de sambas a boleros, passando por baladas, fox-trote e algo como um arrocha em “Beijo”. Sem parecer ter pudor para dizer o que sente em qualquer melodia ou gênero, San Galo afirma gostar mesmo é de pluralidade - mas nem tudo ela arrisca.

Cantar axé? Não, ela se considera humana demais para isso. Mônica admite ser “altamente foliã” tanto quanto confessa que até gostaria de ser cantora do estilo carnavalesco. Mas, “me falta competência. Pra cantar axé precisa ser um semi Deus”. Ela garante estar na Avenida em 2010, mas para curtir a festa como qualquer mortal. Depois disso, talvez em março, ela estreie o show em Salvador. E quanto ao sobrenome, o dela é o original, garante. O da irmã é que foi apocopado para ser mais comercial.


*matéria originalmente publicada em 16.12. 2009 na Tribuna da Bahia
*fotos de divulgação - a última é a capa do DVD

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Jornada épica marca revolução no cinema

Após 15 anos de idealização de James Cameron, o diretor de Titanic, Avatar chega as telonas amanhã. Com alta tecnologia desenvolvida especialmente para a produção, o filme deve marcar o desenvolvimento de ponta da animação em cinema


A ganância do homem por riqueza - tão antiga quanto a própria humanidade – versus o amor ao próximo, a natureza e aos direitos alheios. Esse é o principal eixo das tramas cinematográficas hollywoodianas. O antagonismo entre o bem e o mal, afinal, rege o mundo. Mas atrelar isso a um enredo de aventura espacial, com imagens espetaculares concebidas através de efeitos visuais de ponta pode ser o grande diferencial – mas, claro, não garante o sucesso de um filme. Pois bem, é exatamente isso que torna o longa Avatar arrebatador: uma revolução em imagem nas telonas e um enredo épico onde a natureza tem lugar de destaque. Com direção, roteiro, produção e edição de James Cameron (“Alien”, “Exterminador do Futuro” e “Titanic”), a tão aguardada película estreia mundialmente amanhã.

Foram 15 anos de idealização e quatro de produção. Quando Cameron começou a escrever os primeiros rabiscos da saga, não havia tecnologia suficiente para que aquilo pudesse ganhar as telonas. Algum problema para o diretor? Nenhum. A equipe dele junto aos animadores da WETA Digital (vencedora de Oscar por efeitos visuais) criaram a aparelhagem necessária para tornar real a fantasia. Estima-se que tenham sidos gastos na superprodução cerca de U$240 milhões e mais U$260 milhões no emprego de novas tecnologias, marketing e pós-produção – o maior orçamento da história da 7ª arte. Resultado: James Cameron, vencedor de mais de uma dezena de estatuetas do Oscar, declarou ser este o filme mais desafiador que já fez.

Com o objetivo de manter aparências semelhantes aos dos atores, mas sem querer que eles atuassem com maquiagens, Cameron utilizou o método de captura de performance em que as limitações das próteses, por exemplo, são superadas. A computação gráfica se encarregou de criar efeitos como o alargamento do diâmetro e afastamento dos olhos, o afilamento dos corpos, deixando-os com pescoço mais longo, estruturas muscular e óssea diferentes, mãos com têm três dedos, além de uma pele azul translúcida. Através dessas nuances altamente refinadas, a vivacidade dos personagens se tornou única, inédita, com expressões faciais e corporais bem mais reais que os filmes produzidos até esta data.

Além da magnitude na qualidade das imagens, a essência da história valoriza a natureza não só em cores e na diversidade de plantas e animais fantásticos, mas na crença de um povo unido a ela intimamente. O ano é 2154 e Jake Sully (Sam Worthington) é um ex-fuzileiro naval que, sobre uma cadeira de rodas, vai cumprir uma missão no planeta Pandora de ajudar a desvendar os segredos de um povo chamado Na´vi, a 4,4 anos-luz da Terra. Mas o ar desse lugar é tóxico e o Programa Avatar é criado para que os humanos sobrevivam nessa terra em avatares, corpos que mesclam o DNA humano com o DNA dos nativos. É assim que Jake se infiltra no clã daqueles que vivem sobre um reservatório do valioso minério unobtanium.

Ao compreender e se sensibilizar com o modo peculiar de vida do povo, tornando-se um deles, Jake ainda se apaixona por uma Na´vi e tem os sentimentos transformados, voltando-se contra os planos de destruição do habitat extra-terrestre. Assim, ele tenta evitar um conflito entre civilizações que pode destruir um mundo inteiro. Fazem parte do elenco também Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang e Michelle Rodriguez.

Estratégias de marketing e o desenvolvimento a sete chaves da trama criaram um alarde no público maníaco por ficção, computação gráfica e efeitos especiais, enfim, nos fãs de tecnologia. O ponto positivo é que a bilheteria deve responder muito bem a isso, porém, o ponto negativo é que grandes expectativas podem gerar grandes frustrações. Suposições à parte, fato mesmo é que uma herança tecnológica será deixada. E Cameron já avisou, a depender da repercussão da película, ele se compromete em fazer duas continuações.


*matéria originalmente publicada em 17.12. 2009 na Tribuna da Bahia
*fotos de divulgação

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

I Prêmio CREA-BA de Fotografia 2009 (Acessibilidade e Cidadania)

Com muito prazer, escrevo em meu blog sobre o primeiro prêmio da minha carreira!

A fotografia abaixo, "Equilíbrio No Carnaval", foi a vencedora da 1º edição do concurso realizado pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura da Bahia, categoria livre. A imagem foi registrada na folia deste ano, na Avenida Oceânica (circuito Barra-Ondina), da sacada do Camarote Contigo! Daniela Mercury, no dia 23 de fevereiro de 2009.


Agradeço à instituição, que deu oportunidade a apaixonados pela fotografia, como eu, de pôr a mão na câmera para "falar" de um assunto tão significativo - embora eu não tenha registrado a cena especialmente para o Prêmio. Ao incentivar a discussão sobre o tema acessibilidade e cidadania, colocando em pauta o direito universal de ir e vir dos indivíduos, independente do estado físico de cada um, fica mais fácil encontrar soluções para os problemas urbanos que encontramos a cada curto passo.

Agradeço aos amigos Ian Castro, Rodrigo Fiusa e Gabriela Teixeira, que me ajudaram na escolha da foto.

Agradeço também aos meus pais que, enquanto eu viajava pra Fortaleza, corriam para entregar minha inscrição.

E agradeço à Facom (Faculdade de Comunicação da UFBA) por aguçar uma paixão minha, a de enxergar através das lentes de uma câmera.

Eis o troféu que recebi durante solenidade no Othon Palace Hotel, sexta-feira passada.

É isso, espero que esse seja um ponta pé!
Só não consegue quem não tenta, fica a dica.

Beijos,
Dimas Novais

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um convite à mestiçagem

A cantora baiana apresenta ao público o projeto Canibália, que compõe um disco com experiências sonoras hipercriativas, dois documentários, uma exposição de artes plásticas e o show, que estreia em Salvador dia 1º de janeiro


“Eu trago o sol, nos meus olhos um farol. Eu trago a luz que vem de lá do Sul”. Através dos versos da canção “Sol do Sul”, Daniela Mercury diz ao mundo o que a difere de outros artistas. Consciência do passado e do presente de seu povo e uma luz criativa notável. Tudo isso está em Canibália, uma antropofágica produção artística que envolve um disco, uma exposição de artes plásticas e dois filmes. A compilação de tantas influências populares, refinadas e modernas anuncia: o convite à mestiçagem está feito.

Através de uma coletiva de imprensa virtual, a cantora baiana falou sobre o ousado projeto, já lançado em show e, agora, disponível em CD. São cinco capas diferentes para o álbum que está sendo comercializado no Brasil e uma delas será única para vendas no exterior. “As cinco capas é para as pessoas terem percepções diferentes. É o mesmo disco, mas a ordem das músicas muda, o que altera o conceito que as pessoas vão ter do disco, é uma provocação minha. Cada um responde de um jeito”, explica. Nesse momento, esse conceito distinto fez sentido pra ela. “No próximo, talvez, venham 10 capas ou meia-capa, vai saber, do jeito que as coisas estão indo com os CDs.” Inicialmente o projeto soou estranho para gravadora, “mas agradeço a eles por me apoiarem nessa ideia que me pareceu gostosa.” Haverá uma edição limitada, depois as compras acontecerão através do site da Sony Music. Em um primeiro momento, a capa com a imagem da artista com a flor no rosto é a principal – e é a que foi distribuída lá fora também.

Além de “Sol do Sul” (parceria entre Daniela e seu filho, Gabriel Povoas), outras 13 faixas compõem a obra. Candomblé, drum and bass, axé, twist, house, rap, samba, reggae, merengue e rock. Entre ritmos e arranjos supertrabalhados, como na versão eletrizante de “Tico-tico no Fubá”, que junto a faixa “O Que Que a Baiana Tem?”, simboliza uma homenagem ao centenário de nascimento de Carmem Miranda, a baiana mostra sua percepção de mundo em canções autorais e regravações. “Oyá Por Nós” (Daniela e Margareth Menezes), “Preta” (com part. de Seu Jorge) e “O que Será” (Chico Buarque), estão entre as conhecidas do público. Destaques também para “Trio em Transe”, “Castelo Imaginário”, “Dona desse lugar”, “This Life Is Beatiful”, que tem participação de Wyclef Jean, e “Cinco Meninos”. Esta última, uma curiosa gravação que conta com as vozes de vários membros da família Mercury.

A artista fala que, a seu pedido, todos tiverem que cantar e o fizeram muito timidamente porque a maioria nunca cantou. “Foi mais difícil fazer meus sobrinhos cantarem, descobrir a melhor parte da faixa para eles. Minha sobrinha tinha que cantar ‘5 meninos’ e ela dizia ‘5 patinhos’”. Essa música é uma homenagem aos seus pais. Ela considera “Canibália” um manifesto de afeto, que fala de sua família, e de afetos como Carmem Miranda e Dorival Caymmi.

Nos poros, arte
“Eu inspiro arte por todos meus poros, e transpiro também. A gente vai aprendendo durante a vida e o desejo sempre foi enorme para trazer delicadeza e coisas especiais – não só bonito, mas de provocador”, explica. O show, lançado em agosto, em São Paulo e Rio de Janeiro, chega à Bahia no primeiro pôr-do-sol do ano, durante o tradicional show da cantora no Farol da Barra. A apresentação é dirigida musicalmente por ela junto à filha Giovana e conceitualmente pelo filho Gabriel. “Fiz todos artistas desde pequenos, para me ajudarem”, revela. “É um show muito forte, entro de vestido branco, descalça, depois já vou para um rock com uma bota... são trocas de roupas, detalhes que agregamos durante o show”, adianta.

Fazem parte do projeto, ainda, o documentário “Música: Mãe da dignidade”, produzido por Daniela, que já está filmado e editado. “Faz parte do meu interesse pela vida social brasileira e de como a música reúne todos e como ela se insere no sentido de educação, traz cultura e liberta.” Um outro vídeo (longa-metragem) contará a história do axé e os elementos que o constitui. “Vou mostrar as sínteses importantes que o axé trouxe para a cultura brasileira.” Nos próximos dois anos, uma exposição com artes plásticas, música e dança será produzida com saraus sobre o cenário da música brasileira.

Em sua agenda, está o Réveillon em Sauípe e shows em João Pessoa e em Aracajú. Dia 8 de janeiro, segundo a cantora, haverá uma supresa em Salvador. “Aos 44 anos, estou aprendendo mais. Sempre disse aos meus filhos: mais do que ter um objeto, ter algo pra ser, é bom agarrar todas as manifestações artísticas – isso nada tira de nós. (...) Vou inventar mais coisas”, promete Daniela, que recebe hoje o título de cidadã paulistana. “O Canibália é um convite para a arte livre, enxergar os gêneros,” diz ela, que não se prende a qualquer um deles.

*matéria originalmente publicada em 07.12. 2009 na Tribuna da Bahia
*fotos de divulgação (as cinco últimas imagens são as capas do disco)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

30 mil emoções

Azul e branco eram as cores que estampavam as roupas das fãs declaradas mais assíduas, palheta preferida do astro da noite. Netos com avós, casais e predominatemente senhoras de meia-idade compunham o imenso público que encheu o Estádio de Pituaçú para assistir a um dos principais shows do ano em Salvador. A expectativa era grande, afinal, já havia quatro anos que o rei da música romântica brasileira não se apresentava na cidade. Mas chegou o instante tão aguardado e Roberto Carlos lançou emoções a uma plateia estimada em 30 mil pessoas, na noite do último sábado, por duas horas, durante o espetáculo “50 anos de música”.

Após uma introdução de quase 10 minutos da orquestra RC, que acompanha o cantor na turnê, Roberto Carlos subiu ao palco para iniciar o show da forma mais tradicional, cantando “Emoções”, pouco depois das 21h40, com 40 minutos de atraso. Inteiramente vestido de branco, disse, em seguida: “que prazer rever vocês. Mais uma vez em Salvador. Pela primeira vez no Estádio de Pituaçú. É uma alegria estar com vocês neste show da minha vida.” Após agradecer aos patrocinadores, finalizou: “gostaria de dizer muitas outras coisas, mas meu negócio mesmo é cantar”. “Eu te amo, te amo, te amo” e “Além do Horizonte” deram prosseguimento a apresentação.


O estádio ainda tinha espaços vazios na arquibancada. A previsão da produtora do show era que comparecessem 32 mil pessoas, mas, ao término do evento, a assessoria estimou duas mil a menos. “Essa canção gravei há muito tempo, mas quem fez mesmo sucesso com ela foi Claudinha Leitte, essa baiana maravilhosa,” declarou Roberto Carlos antes de entoar “Amor Perfeito”. Com violão em punho, ele seguiu cantando “Detalhes”, quando o público o aplaudiu intensamente. “Aquela Casa Simples”, “Nossa Senhora” e “Mulher Pequena” continuaram o set-list.


“Hoje, a gente não viu a novela, hein? Vocês não viram a novela porque vieram me ver. Obrigado. E eu não vi porque vim ver vocês. Tô ganhando. Tô na vantagem”, comentou, antes de cantar “A Mulher que Eu Amo”, canção que faz parte da trilha sonora da novela Viver a Vida. Em uma apresentação com pitadas mais sensuais que o comum, Roberto contou que a data simbólica de 50 anos de carreira, celebrada este e no próximo ano, o fez refletir sobre a infância, a vida e Cachoeira de Itapemirim (cidade natal), chegando a conclusão de que o mais difícil é pensar na sua vida sem as canções. O artista ainda falou do fascínio que sente, desde criança, pelas estradas e pelos caminhões. “Às vezes penso que se eu não fosse cantor, sei lá, bicho, acho que eu seria caminhoneiro.” Em uma noite nostálgica, o rei compartilhou íntimas emoções com seus súditos, que reagiam a cada comentário.


Estrutura e recepção de majestade
Uma iluminação de incrível apuro técnico. Enquanto isso, quatro telões em alta resolução ficavam com a responsabilidade de levar as expressões faciais e gestos do artista ao público que, do lado oposto ao palco, nas arquibancadas, até usava binóculos para enxergar o astro. “Eu sempre digo que ninguém vive uma emoção dessa sozinho. (...) Eu tô vendo que aqui também é igual. Já que á assim, vamos terminar essa canção juntos. E com o coro dos fãs finalizou “Outra Vez”.


“Eu gostaria durante minha vida toda falar do amor bem sucedido. Mas não foi isso que eu fiz porque a vida não é bem assim. Essa canção, por exemplo, fiz no momento de muita tensão, pra não dizer outra coisa. Tava muito bravo,” revelou, cantando depois “Do Fundo do Meu Coração”. “Mas em outros momentos fiz outros tipos de canções. Que bom que a vida tem isso. Há momentos que nos causam dor, mas há momentos de alegria e até prazer. “Eu te proponho” e “Os Seus Botões” ilustraram o discurso. “Mas aí veio a noite e a noite todo mundo faz... os planos do dia seguinte”, falou divertindo o público. “Café da manhã”, encerrou o tom mais malicioso da noite.

A participação da orquestra sinfônica de São Paulo abrilhantou ainda mais todo o show. Guitarras pesadas abriram o momento Jovem Guarda, com “É Proibido Fumar” e “Namoradinha de um Amigo Meu”. Perto do fim, Roberto dedicou “Como É Grande o Meu Amor por Você” ao público e seguiu com “É Preciso Saber Viver” e “Jesus Cristo”, encerrando a noite com uma larga distribuição de rosas. Botões vermelhos e brancos eram disputados por um público que se amontou em frente ao palco - não só mulheres, aliás, disputaram espaço no gargarejo. Demonstrando estar satisfeito com o espetáculo, o vice-presidente da Caco de Telha, e sócio da cantora Ivete Sangalo, Ricardo Martins, comentou: “acho que foi a realização de um sonho pra gente fazer essa produção para o público baiano, que respondeu muito bem. E o Estádio se consolida como uma nova área de shows de Salvador, a cidade estava precisando.”

*Texto e fotos de Dimas Novais exclusivas para o Cenas Por Grama

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Raimundo Fagner pra tocar no rádio

Atualizado, mas saudosista, o cantor cearense lança novo disco, em que fala de violência urbana, fome e, claro, amor. Em meio ao discurso sobre os projetos futuros, ele surpreende e critica Caetano Veloso chamando-o de aborrecente. Como um menino que se sente na obrigação de falar mal do coleguinha, Fagner parece querer comprar briga gratuitamente


Marcada para às 10h, a entrevista começou com 13 minutos de atraso, mas não por culpa do artista, que deve ter gostado da falta de pontualidade, já que foi acordado pela ligação. Soltando poucas palavras – por óbvios motivos – ele responde as primeiras perguntas sucintamente, fazendo crer que não “renderia muito” (para incluir o leitor no jargão jornalístico). Conclusão precipitada. Na entrevista esmiuçada abaixo, mesclada com um texto descritivo do artista sobre seu novo disco, “Uma Canção no Rádio”, Raimundo Fagner fala sobre a concepção do trabalho que acaba de chegar às lojas, o prazer pela intensa produção de discos, praticamente anual desde o início da carreira, em 71, e Caetano Veloso. Não, ele não foi perguntado sobre esse último assunto. Talvez o estabanado acordar o tenha feito tecer comentários voluntariamente sobre seu histórico desafeto. Ou não, como o baiano diria.

“Uma Canção no Rádio” é um disco simples e poético, que como um “filme antigo” (codinome da faixa-título) retrata o amor com um romantismo febril e adolescente. Na primeira canção, “Muito amor” (São Bento), esse clima já fica exposto e segue em “Regras do Amor” (Oliveira do Ceará), “Sonetos” (Domer), e pula para a nona faixa, “Amor Infinito” (Oliveira do Ceará). Em meio a isso, a harmonia rítmica, os arranjos e, claro, o forte sotaque do cantor, dão toques regionais. Tal característica fica ainda mais evidente na regravação das já conhecidas pelos nordestinos “Me dá meu Coração” (Accioly Neto) e “Flor do Mamulengo” (Luiz Fidélis), logo antes de “Farinha Comer” (Fagner e Chico César), que aparece no mesmo clima e inaugura uma parceria autoral retratando o crônico problema social da fome. “Essa música já estava combinada há algum tempo. Mandei a música pro Chico num dia e no dia seguinte ele mandou a letra com versos de gr
ande poeta”, relata.

Fagner recebeu dois parceiros nos vocais. “Martelo” (Oliveira do Ceará e Adamor) ganhou mais um autor com os versos de Gabriel O Pensador. Versos contemporâneos que fazem críticas mais diretas e escrachadas, em comparação com a parte da letra escrita anteriormente, citando as crianças João Roberto, João Hélio e Isabela, vítimas fatais recentes de violência. A canção é uma flecha que acerta prontamente seu alvo: o sistema judiciário brasileiro. Fagner conta que sugeriu mostrar ao carioca a canção “já que o tema é bastante instigante e poderia despertar o interesse do Gabriel em fazer a participação no CD”. Para sua surpresa, ele obteve resposta rapidamente. “De bate-pronto escreveu ao seu estilo os versos que canta. Embora falando do mesmo tema, são duas leituras distintas para os dias cheios de violência e injustiça social que vivemos”, comenta o cearense.

A outra parceria, “Uma Canção no Rádio”, foi composta especialmente para esse trabalho pela dupla Fagner e Zeca Baleiro, cuja afinidade já pôde ser conferida em trabalhos anteriores, como o disco Raimundo Fagner e Zeca Baleiro, de 2003. A parceria pelo visto ainda tem muito o que render: “a gente vem sempre compondo juntos”. Diferente do convencional, “a participação de Zeca se dá logo na abertura da faixa. É um fato raro o artista convidado abrir a canção, mas, no meu entender, é apenas a continuidade do trabalho que fizemos recentemente e que se revelou de grande afinidade.”Assim como em “A voz do silêncio” (Fagner e Fausto Nilo), que fecha o álbum, ela é mais sofisticada no tratar do tema amor e seus desencontros. Para Fagner, essa última remete às canções dos Beatles. E sobre a banda inglesa ele fala que é fissurado. “Total, sempre fui ‘beatlemaníaco’ e sempre ouço, sempre fica alguma coisa”.


Concepção do álbum
O CD, lançado pela Som Livre, começou a ser pensado no final do ano passado enquanto ouvia “coisas bonitas de um rapaz que escreve muito bem”. O tal moço é Oliveira do Ceará, conterrâneo que ele não conhecia, mas que o surprendeu com suas composições. Repertório escolhido, Fagner realizou a produção completa durante quatro ou cinco meses entre estúdios no Rio de Janeiro e Fortaleza. O cantor é acostumado a receber músicas de todo os cantos do Brasil, “recebo umas 1000 fitas”, diz. Mas dessa batelada um mínimo material é utilizado. “Se aproveitar dois ou três já ta bom. Mas guardo, tenho um baú maravilhoso”, revela ele, que afirma escutar muito a criatividade dos anônimos.

A razão do título do disco vem da faixa homônima “resumir todo o sentimento do trabalho no seu contexto poético e musical além da referência que faz ao rádio, destino natural de músicas que são feitas para chegar aos ouvintes, relevando cada vez mais sua importância na comunicação". Para ele, o álbum tem uma sonoridade atualizada para cair no gosto das novas gerações. “Uma canção no rádio” soma-se a outros 39 discos de carreira de Fagner, retirando da lista as coletâneas, em 38 anos de carreira – obtendo aí a elevada média de mais de um disco por ano. Esse é o resultado do tamanho do prazer que sente em realizar seu ganha-pão, justifica. “Férias só quando Deus mandar. Adoro escutar as pessoas, escuto o público, adoro estar atualizado, mesmo trazendo coisas antigas sempre. (...) Não me estresso com nada, é meu sustento e meu prazer. “Eu quero é viver do trabalho e não morrer do trabalho”, desabafa. “Este é o CD que comemora meus 60 anos de vida (a serem completados dia 13 de outubro deste ano) e que diz bem o momento que estou vivendo musicalmente e motivado naquilo que mais gosto de fazer com a música.”


Futuro e passado
Pelo seu contato estreito com um dos artistas mais importantes na difusão da cultura nordestina pelo país, Luiz Gonzaga, Fagner parece sentir uma obrigação de produzir algo para comemorar o centenário do nascimento do artista que faleceu há 20 anos. Por isso, ele planeja em 2011 (um ano antes da data) gravar um disco em homenagem ao pernambucano, curiosamente, sem a presença maciça do instrumento que lhe foi tão característico, a sanfona. “Quero trazer Luiz Gonzaga para as pistas para agradar a meninada. A obra dele é fantástica.” Mais uma vez o cearense quer trazer o passado de forma renovada. “A sanfona matou ele”, lembra em referência ao peso do instrumento ter trazido supostos malefícios a saúde de Gonzagão em função de sua osteoporose.

E já pensando no próximo registro ele inicia a turnê do disco dia 15 de agosto, em São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, entre outras cidades. Cada noite lhe renderá filmagens que serão compiladas e lançadas em DVD provavelmente no final deste ano. Salvador está, por enquanto, fora do roteiro, mas dentro dos anseios do cantor: “os baianos são tão receptivos. É um povo fantástico.” Enquanto falava de como vai ser seu próximo DVD, surpreendentemente, Fagner disse: “mas vou fazer uma coisa adulta, não de menino como Caetano”. O hipotético querer ser sempre jovem do baiano parece não ser observado com bom grado pelo cearense que, apesar de não ter visto nem ouvido seu último disco, afirmou: “só sei que ele pediu R$2 milhões, mas o ministério da cultura não está mais com Gilberto Gil no comando e ele não conseguiu”. Para ele, estar voltado para um público jovem querendo parecer assim é perder a “madureza”. “Caetano é menino, daqueles aborrecentes, sabe?”

*matéria originalmente publicada em maio de 2009 na Tribuna da Bahia
*foto1 é a capa do disco e fotos 2 e 3 de Lívia Campos/divulgação

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Até onde podem ir o corpo e a arte?


Brilham olhos, correm pernas, voam pipocas. A lona se abre e centenas adentram-na numa velocidade quase infantil. Crianças, adultos, idosos. Quem não quer ver? O picadeiro é para todos que guardam um carrinho de rolimã ou uma boneca de pano na memória. Mas não há brinquedos assim, lá a brinquedoteca é viva. E nada de saudosismo, é tudo novo. Tecnologia afiada nos corpos e na arte. Aliás, você sabe até onde podem ir o corpo e a arte?

É lua cheia na noite de nuvens, ao menos sob a lona. Projeções reais sim. Vá dizer que não são? Por baixo dela, há, ainda, uma platéia recheada de expectativa. Um palco em círculo com duas cadeiras prateadas, um abajur, uma mesinha e uma gaiola com um globo vermelho luminoso dentro. Há também uma porta no canto, atrás. Um cenário de solidão posto diante de um coletivo de inquietação. Olhe ali! Estão surgindo personagens daquela magia entre a platéia. Sem alardes ou fogos de artifício, mas brandamente, o espetáculo se inicia. Sem que ninguém se dê conta: “Psiu! Já começou”. Preste atenção. Talvez você comece a entender até onde podem ir o corpo e a arte.

Uma garota se sente só mesmo com os pais ao lado. Sua mente cria figuras fantásticas que entram na sua vida sem hesitar. Quem as convidou? Sua imaginação. E esta confabula com as artes circenses pelo resto daquela noite iluminada. Sorrateiramente, um homem é retirado do público e torna-se mais um membro cênico. Uma oportunidade única de sair da recepção para a emissão da magia. Logo depois, meninas com biotipos orientais demonstram quão disciplinadas são ao brincar com diabolos como quem maneja ioiôs. Sem nariz vermelho, o palhaço da trupe aparece e com suas artimanhas arranca risos frouxos da garotinha ainda sem dentes e do marmanjo durão sentados lado a lado. O humor é unanimidade. Mas ainda não há pistas sobre a até onde podem ir o corpo e a arte.

Mergulham no ar tecidos vermelhos que povoam a cena numa agilidade desconcertante. A menina que pula corda em casa com a irmã fica baratinada com as dezenas de pessoas saltando dois, três, quatro cordões de vez. Bambolês viram anéis num dedo daqueles finos que deixam folga para peripécias manuais. Um casal encaixa seus corpos um no outro, outro no um, causando temores quanto uma possibilidade de queda deles em pleno palco – ingenuidade, isso parece nem chegar perto de acontecer. Equilíbrio, concentração ou força? Talvez tudo junto. Um solo de contorcionismo deixa arredondada uma coluna que deveria ser vertical. De volta, o palhaço quer rodar um filme. Atrapalhado, astuto, espirituoso, ele é tudo isso… mudo. Um salto do segundo andar de uma torre humana, arremesa um homem ao quarto pavimento de outra torre – e ele tinha pernas tão normais quanto as minhas ou as suas, leitor. Cadê a lei da gravidade, sumiu? E corpo e a arte, afinal, até onde podem ir?


Não há uma única palavra dita, só cantada. Alguns gritos onomatopéicos são entoados, mas eles se encaixam em nenhum e em qualquer idioma. O espetáculo é compreendido mesmo assim. A linguagem dos gestos ali é definitivamente universal. A dança, a música, o circo, a imagem e a expressão corpórea chegam a todos, sem distinção. Os sons são produzidos ao vivo por músicos e misturam-se com os sentimentos do público que podem ser ouvidos através de exclamações, uma vez que interjeições e gargalhadas nunca são tímidas. Explicitamente altas, claras e vivas.

Depois de espalhar alegria, os saltimbancos deixam rastros de novas cores em meio ao verde, amarelo e azul. “Quidam” atravessou o mundo e esteve aqui em frente. Pode avisar: o Cirque Du Soleil chegou, encantou e partiu! Quem não fugiu com ele, terá que esperar pelo seu retorno. E o que ficou da magia é a certeza de que não há limites para o corpo e nem para a arte.




*matéria originalmente publicada no blog Lupa Digital
*fotos de divulgação

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Na terra do axé, Mariene faz samba


Em meio a uma overdose de axé em pleno verão de Salvador, um outro ritmo chama atenção. Enquanto carros na rua só tocam a música baiana que o Brasil tanto conhece, uma quantidade notável de pessoas se aglomera no Cais Dourado, casa de show no Comércio, para ouvir um som diferente. A artista responsável por isso é Mariene de Castro. Cantando samba popular essencialmente, a cantora baiana realizou mais uma edição do projeto “Santo de Casa” na última sexta-feira. Além de terem participado da noite os Filhos de Gandhy, o Cortejo Afro e Seu Jorge, Beth Carvalho também esteve presente, entretanto, ela se limitou a admirar o show.

Pouco mais de 21h40, começava a ser ouvida, do alto do camarote, a voz da cantora que aos poucos se transforma na nova cara do samba da Bahia. “Me leva na paz de Deus, me leva”. Com esse samba de Arlindo Cruz, Mariene de Castro abriu a noite e subiu ao palco para iniciar quase duas horas de show. “Eu vim pra dizer que o santo de minha casa faz milagre. Feliz ano novo. E viva a cultura popular”. Canções de seu disco “Abre Caminho” (2006), como a própria música-título, além de “Sambas de Terreiro” e “Cantigas de São Cosme e São Damião”, se misturavam com clássicos do samba tradicional, como “Falsa baiana”, “A vizinha do lado” e “Quem quiser vatapá”, além de músicas de outros estilos regionais pelos quais passeia, como o samba-canção, o maracatu e o ijexá.


A coisinha do pai
Madrinha de Mariene, a sambista Beth Carvalho contemplava o show como uma fã que não quer perder nenhum minuto do espetáculo. Com uma câmera na mão, ela registrava a apresentação e as palavras de Mariene em sua homenagem. Ao aparecer na sacada do camarote, chamada pela baiana, o público em coro pediu que cantasse, mas ela se conteve a continuar como espectadora mesmo, sem despregar os olhos do palco. “Agradeço muito a essa sambista linda, minha madrinha. Vamos cantar a música que ficou conhecida na voz dela”, e entoou “Raiz”, que também está em “Abre Caminho”, emendando com “Vou festejar” e “Coisinha do pai”. Na metade do show, Seu Jorge se juntou a Mariene para fazer uma breve participação. De óculos escuros e seu jeito peculiar de cantar, ele entoou “Minha missão”, “Eu sou o Samba”, “Samba da Minha Terra” e um improviso com “Samba pras Moças”.

Apesar de já ter uma carreira de mais de 10 anos, só há pouco tempo e a “passos de formiguinha”, como Mariene mesma costuma dizer, o Brasil passa a ter noção da importância de seu trabalho. E sobre a cantora, Seu Jorge deu sua opinião à Tribuna da Bahia: “Mariene significa renovação, não é à toa que Beth está aqui. Ela está de olho no que Mariene tem pra dizer. A imprensa de todo o país vai tomar conhecimento e vai ser inevitável parar de fingir que ela não existe.” Beth concorda: “o talento dessa cantora é inquestionável.” Quem também assistia ao show e elogiou a sambista baiana foi o presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues. “É um show muito bem preparado musicalmente. É a cara da Bahia. Costumo dizer que santo de casa faz milagre e aqui faz mesmo. Isso é importante porque milhares de pessoas de várias partes do mundo estão dançando e cantando samba-de-roda, uma música da terra”, disse.



Samba de raíz
Para relembrar o samba-de-roda de Santo Amaro, Mariene sacou um prato, que em sua mão se transformou em instrumento, e fez referência a nomes como Dona Dalva, Samba de São Braz, Samba de Nicinha e Dona Edite do Prato. “Esse ano é de Oxossi e no sincretismo religioso, São Jorge. Que ele traga tudo de bom”, pediu a cantora. Na casa lotada, ela fez o público se abraçar ao abrir rodas de ciranda quando cantou “Como Pode um Peixe Vivo Viver Fora D'água fria” e “Farinhada”.

Com sua banda, composta por dois violões, um baixo, um cavaquinho, um acordeon, quatro percussões (que se revezavam com pandeiros), além de três backing vocals, a sambista finalizou o show com os clássicos da MPB “O que é, o que é?”, “É hoje”, “Ê baiana” e “Eu não sou daqui”. Ao som de “Canção da Partida”, Mariene distribuiu rosas brancas para o público e guardou duas, uma para Beth e outra para Seu Jorge. Sua madrinha, então, deu a graça de sua voz apenas no encerramento do show, quando Mariene já estava longe dos palcos e foi até ela no camarote para encerrar como começou, ao som de: “Me leva na paz de Deus, me leva”. Lá as cantoras se encontraram e a baiana se despediu do público.

A busca pela raiz do samba-de-roda leva Mariene a uma sonoridade ímpar, fato que, culturalmente, tem grande importância não só para a Bahia, como para a identidade do Brasil por inteiro. Com o discurso de que não troca arte por dinheiro ela mantêm a riqueza poética da música e seu destaque entre os artistas baianos fica cada vez mais evidente - mesmo nadando contra a corrente por não cantar o estilo comercial predominante no Estado, o axé.

*matéria originalmente publicada em janeiro de 2009 na Tribuna da Bahia
*foto1 de divulgação e fotos 2 e 3 de Edgard de Souza/divulgação

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Portfólio Moda























* fotos de Dimas Novais registradas nas edições 2009 da Semana Iguatemi de Moda (SIM) e Barra Fashion, em Salvador/BA

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Os muitos sons de Toni Garrido

Capa do disco Todo Meu Canto, o primeiro solo do cantor

"É muito gostoso recomeçar. É muito bom ter coragem, refazer, experimentar”. Com a empolgação de quem está começando um novo momento na carreira, o cantor e compositor Toni Garrido falou, por telefone, à Tribuna da Bahia sobre as novas sonoridades que estão divertindo seu trabalho, a saída dele do Cidade Negra e a solidão de um pop star. “Todo meu Canto”, primeiro álbum solo do artista deve surpreender àqueles desavisados que pensam nele como um cantor de reggae – e só disso.

A radiofonia do Cidade Negra, sua ex-banda, está passando longe de ser a trilha de Toni Garrido neste momento. Seus caminhos agora passam por um experimentalismo e uma mistura sonora que escolheu parâmetros mais extensos do universo da black music como referência. Embora sempre tenha andado nessas vertentes, agora o objetivo é testar outros sons. Ou seja, rock, música afro, soul, funk (daqueles da velha guarda) e tantas outras influências de uma musicalidade que não tem fronteiras fazem parte de sua vida musical atual. E estes são apenas alguns dos gêneros que o permitem se divertir em um canto só seu. Mas, claro, há espaço para reggae sim. Afinal, o reggae também é black.

Co-produzido e mixado por Liminha, “Todo meu canto” é uma festa de encontros de Toni com sons que o fazem vibrar. Já na primeira música de trabalho, percebe-se o quanto ele deixa que novas influências enriqueçam sua musicalidade mas sem que precise abandonar o passado, de onde ele bebe veemente. “Me libertei” (Tony e Frank), o carro-chefe do disco, é um hit de um outro Toni, o Tornado, ícone brasileiro da funk music, da década de 70. Embora possa parecer que a música seja uma flechada no Cidade Negra, banda que deixou há quase um ano, o título não se refere a uma sensação de quem estava preso e se soltou, mas sim, a de um novo vôo para um céu aprentemente sem limites criativos. “Foram mais de 14 anos de pura felicidade. Não seria leviano, grosseiro, muito menos idiota de falar qualquer coisa ruim do tempo em que fiquei na banda. Pelo contrário, só coisas boas tenho a dizer. Foi a minha energia que mudou”, explica.

Quando questionado sobre o estigma de ser regueiro, uma surpresa: “engraçado, é a primeira vez que me perguntam isso. É o oposto do que me perguntaram a vida inteira.” Segundo ele, lhe indagavam sobre o que achava das críticas que diziam que o Cidade Negra se afastava do gênero. Mas o momento agora é outro e o estilo jamacaino é minoria entre as faixas de seu álbum. “Não. Eu não me incomodo. Amo o rótulo de regueiro. Ser regueiro é maravilhoso.”

Músicas de funk e reflexão
Durante os cinco meses de ensaios, gravações e masterizações, Toni contou com participações de antigos e novos parceiros. Entre as novidades, MC Sapão está na faixa “Fim de semana good time”, parceria que reitera para quem tinha qualquer dúvida: ele caiu no funk. De acordo com o cantor, o estilo de música que quis fazer determinou a escolha pelo MC. “Gosto muito de música eletrônica, de me jogar na pista, da batida mesmo, e ele tem isso”, comenta. Antes mesmo de ser questionado, ele se antecipa a falar sobre as polêmicas letras do funk carioca. Quando pensa no gênero, Toni se lembra de artistas como Claudinho e Buchecha e em músicas como “Rap da Felicidade”, cujo refrão, “eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”, transmite, de acordo com ele, boa energias. Assim também é o MC Sapão para Toni, que difere-se por trazer ao público versos de boas vibrações. “Fiz questão de gravar com ele”.

Em “Minhas lágrimas”, o maestro e violoncelista Jacques Morelenbaum cria um clima de pura harmonia com um quinteto de cordas. Na canção autoral, composta por Toni ainda na adolescência, ele reflete sobre os sentimentos de felicidade e tristeza que se contradizem rotineiramente na vida de um artista. “Tudo é tão bom quando está sendo. Tudo é tão bom quando se é e estar”, diz um dos versos. Esse “estar”, refere-se ao pop star e diz que muitas vezes a alegria mostrada ao público, diante das luzes dos holofotes, não corresponde com a solidão mais íntima, ofuscada ali, dos quartos de hotel. “É uma assunto que o Cazuza já tratou”, lembra.

Ao todo, o CD é composto por 13 faixas. Alguns dos destaques são o funk suingado de “Perfume da Nega”, a releitura de “Tudo Que Você Podia Ser” (Lô Borges e Marcio Borges), do Clube da Esquina, além da participação do rapper português Boss AC em “Rimas de saudade”, onde Toni flerta com o hip hop. Apesar desse ser o mergulho mais profundo que já deu no seu próprio gosto pessoal, ele confessa que tem pela frente muito o que transitar neste meio. “Tenho ainda alguns álbuns a gravar de black music”. Sua diversão só está começando.


*matéria originalmente publicada na edição de 04.05.2009 da Tribuna da Bahia
*fotos de Bob Wolfenson/divulgação

terça-feira, 27 de outubro de 2009

“Me vejo e me reconheço para sempre um Novo Baiano”

Moraes Moreira e Davi Moraes durante gravação do DVD

Quatro décadas depois de dar o pontapé para o início de um grupo que se tornou marco na história da juventude brasileira, Moraes Moreira lança “A história dos Novos Baianos e outros versos”. Este novo trabalho teve participação de um dos seus dois filhos, o músico Davi Moraes, e inclui CD e DVD. A apresentação do registro aos baianos aconteceu na última segunda-feira, à noite, durante sessão de autógrafos na Livraria Saraiva do Shopping Salvador.

O show de gravação foi realizado na Feira de São Cristovão, centro cosmopolita de reunião da cultura nordestina, no Rio de Janeiro, em junho de 2008, e revive os 40 anos de história musical de Moraes Moreira, apresentando além da biografia dos Novos Baianos, sua carreira solo e, ainda, canções inéditas. Neste trabalho, que chegou às lojas esta semana, ele não só canta, como conta na forma de cordel toda uma história a partir de sua visão. A idéia surgiu de um livro homônimo lançado em 2007. A repercussão positiva e a evolução dos pockets shows que fazia em apresentações com banda de suporte e grandes produções impulsionaram Moreira a querer alçar vôos mais altos.

“Começo dos anos 70. Foi um momento de glória, prometo agora contar. Sem medo, os Novos Baianos entram no trem da história e não podiam parar”, diz o cantor, antecedendo “Brasil Pandeiro”, no DVD. Na primeira parte do show, Moraes canta e conta a trajetória do grupo. Passeia por canções como "Ferro na Boneca" e "Colégio de Aplicação", do primeiro LP, além dos clássicos que insistem em povoar a mente de muitos fãs saudosos, como "A Menina Dança", "Acabou Chorare", "Mistério do Planeta", "Brasil Pandeiro" e o hino da geração paz amor, "Preta Pretinha". Na outra parte da apresentação, Moreira abre as cortinas para o regionalismo brasileiro. Sucessos como "Meninas do Brasil", "Lá vem o Brasil Descendo a Ladeira", "Sintonia", "Forró do ABC", "Eu Também Quero Beijar", além de homenagens a Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, compõem o repertório. Duas inéditas, "Spok Frevo Spok" e "Oi", fazem a ponte, e aí chega o carnaval. Forma-se o "Bloco do Prazer" e o “Chame Gente” transforma o palco numa "Festa do Interior".

Qual é a essência dos Novos Baianos? “Brasil”, responde Moreira. Para ele, o grupo foi formado por “uns meninos que saíram do interior acreditando no Brasil. É uma turma que se afinou não por laços de sangue, mas por laços das idéias, dos ideais. Estávamos antenados com o tropicalismo”. Da história dos NB, Moraes Moreira destacou “Preta Pretinha” como a mais popular composição da dupla Moreira e Galvão. “Essa parece que tem dois acordes só, qualquer músico iniciante sabe tocá-la”, brincou. Além disso, “Acabou Chorare” é relembrada como um momento mágico, como um período sublime dos Novos Baianos.” O ponto alto da poesia, da letra e até do modo de tocar violão do grupo”.

E os Novos Baianos, voltam?
Se depender de Moraes Moreira, os Novos Baianos já fazem parte da história antológica da MPB. Por isso, um retorno seria improvável. Presente no evento, Galvão, por sua vez, estava acompanhando o lançamento do amigo, com a cabeça fervilhando de idéias. São novos projetos que visam o tão esperado retorno da banda. Para que os caminhos dos cinco se encontrem novamente, ele contou que está captando recursos para viabilizar uma gravação de CD e DVD ainda este ano e para fazer uma turnê dos Novos Baianos juntos, todos juntos. Segundo ele, Paulinho Boca de Cantor, Baby Consuelo e Pepeu Gomes sabem de sua proposta e já toparam, mas Moreira não sabia, pelo menos até aquele momento. Contudo, saberia naquela mesma noite. “Hoje minha experiência é maior e minha empolgação é a mesma. Já nem uso mais drogas. A volta dos Novos Baianos com Moreira seria uma força maior”, disse.

Questionado, então, sobre um possível retorno dos Novos Baianos, Moraes Moreira foi claro: “se a gente se separou é porque não tava numa boa. A gente tava num momento em que as coisas não estavam fluindo bem.” E sobre o projeto de retorno dos Novos Baianos ele foi veemente. “Acho difícil, não impossível, claro, mas acho difícil. A vida mudou”. E justifica afirmando que o contexto de vida dos integrantes da antiga banda é outro hoje. “As pessoas não continuam iguais. Se for para fazer algo que não chegue de novo em um nível de excelência, prefiro não fazer”. Sobre voltar para o carnaval de Salvador, falou: “ou venho com dignidade para o carnaval da Bahia, com o respeito que mereço, afinal eu prestei um serviço, continuo fazendo fora do Estado”. Ele ainda comentou sobre a indústria cultural que o axé produziu nos últimos anos: “o axé tomou conta porque deixaram. Tem que equilibrar o bom negócio e a responsabilidade cultural”.

Os caminhos de Moreira apontam para shows de apresentação do DVD e o lançamento de um livro em 2010. Em Salvador, ele pretende tocar ainda este semestre, provavelmente na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Já outro livro, o “Novos Elétricos”, que está escrevendo sobre os 60 anos do trio elétrico, deve chegar às lojas no início do próximo ano. De acordo com Moreira, há muito trabalho inédito dos Novos Baianos para sair, então não vai ser preciso um retorno do grupo para que essa história seja relembrada e reproduzida. “Me vejo e me reconheço para sempre um Novo Baiano. Se pudesse, faria tudo de novo”, afirmou durante o concorrido evento. Pela disposição, esse Novo Baiano deve continuar a fazer história por muitos anos ainda, mas com versos só seus.


*matéria originalmente publicada na Tribuna da Bahia
*fotos de divulgação

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Canto axé sim, Senhor

Cantar axé sobre um trio elétrico pode ser uma atitude profana para cristãos fervorosos. Letras sensuais, e até sexuais, ou que falam de candomblé, e as bebidas alcoólicas são considerados fatores que afastam o carnaval de Deus. Entretanto, muitos artistas do axé seguem as palavras da Bíblia sem deixar a folia de lado.

“Tem quase três anos que sou cristão. Independente do que eu cante, levo Deus no meu coração. Não incentivo ninguém a se embriagar e sim a se amar”, diz o vocalista da banda Chica Fé, Sergio Fernandes. O cantor é apenas um dos diversos artistas do axé music que consideram-se seguidores dos ensinamentos da Bíblia. Abraçar alguma doutrina ou Igreja? Ser evangélico? Não. Eles se auto-intitulam cristãos apenas. Para afastar possíveis preconceitos (ou não), eles costumam dizer que tem “uma espiritualidade” ou que são “servos de cristo” – mesmo que frequentem constantemente apenas uma Igreja.

“Minha relação com Ele é muito individual, não gosto de seguir pessoas, dogmas. Sigo o meu coração”, conta Sergio quando entrevistado na Comunidade Evangélica Artistas de Cristo (CEAC), na Pituba, após um culto. O Bispo Ivo Dias, que fundou a Igreja em 2000 e que hoje possui 400 adeptos, confirma
que essa postura é a mesma da maioria dos artistas. Frequentada também por Xandy (Harmonia do Samba), Carla Perez, Paula Cristinny (ex-Levada Louca), Gilmelândia, Mano Moreno (ex-Braga Boys), Alinne Rosa (Cheiro de Amor), Maristela Muller, entre outros nomes da música baiana, a Igreja dos Artistas parece ser a mais procurada entre os profissionais do ramo. O motivo de tanta predileção? “Aqui ninguém é incomodado pelo que tem ou pelo que não tem”, conta o Bispo. Lá eles conseguem ser pessoas comuns, não são abordados por fãs, ficam à vontade e ainda se simpatizam pelo clima musical que, claro, a Igreja tem. “Mas a CEAC é eclética, é para todos os segmentos sociais”, segundo Dias. Ele realizou o casamento de Claudia Leitte e contou que ela e sua família já frequentaram bastante a Igreja anos atrás. Ivete Sangalo também já foi lá. Fez uma visita, mas foi única, não voltou mais. Para levar os ensinamentos da Bíblia aos músicos durante o Carnaval, Bispo Ivo criou um programa de visita aos trios elétricos. Ele afirma que não interfere na vida profissional dos artistas: “dou orientação profissional, faço terapia emocional”.

Para quem acha que as pessoas só se tornam evangélicas em momentos em que suas vidas não andam de “vento em polpa”, Mano Moreno é um exemplo contrário. Ele foi cantor do Braga Boys, banda que estourou no Brasil e ganhou prêmios no Carnaval de 2001 com a música “Bomba”, tradução de uma música em espanhol. No auge do sucesso do grupo, em um dia de desfile naquele Carnaval foi feita uma corrente de oração no final do percurso. Aquilo o emocionou de tal forma que, a partir dali, o vocalista passou a olhar Deus de outra forma. “Foi pelo amor, não pela dor”, explica. Enquanto isso, o hit colava como chiclete nas rádios de todo o país. Mas, como pólvora, a banda explodiu e sumiu. Hoje, Moreno assume os vocais do Terra Samba, e espera nunca mais deixar de frequentar a Igreja. “Estou no mercado da música secular (comercial, na linguagem cristã), nenhum lugar da Bíblia fala sobre isso”, comenta Moreno, que ainda diz que ao tocar, às vezes as pessoas percebem que há algo de diferente nele, mas não sabem dizer o que é. Épico no axé, Cid Guerreiro agora se dedica exclusivamente à música gospel

Enfim, alguém confessa: “sou evangélico”

No dia da apuração desta matéria, a banda que tocava no palco da CEAC era formada por músicos das bandas de pagode Harmonia do Samba e Saiddy Bamba. São os levitas, que louvam a Deus através das artes. Percussionista do Harmonia, Márcio Gomes neste dia não subiu ao palco, mas participou do culto e contou como é sua relação com a Igreja. Ele deixou o cigarro, a bebida e a vida de mulheres fora do casamento após conhecer a “palavra de Deus”. Gomes aceitou Jesus há seis anos, mas convertido está há dois. Ele, sim, se considera evangélico. “As pessoas radicalizam muito. Ser evangélico é ser simples, é ter intimidade com Deus”, diz. Músicas que cultuam outros deuses (a exemplo dos orixás), que tanto são tocadas nos show de axé, o incomodavam muito, mas aprendeu que pode tocá-las, afinal, para ele “a Bíblia diz que temos que ser submissos aos nossos líderes aqui na Terra”. Dos 14 componentes da banda, apenas quatro ainda não se converteram. “Antes dos shows temos um encontro com Deus”.

Figura de contribuição considerável ao axé music e compositor de sucesso, Cid Guerreiro anda afastado da mídia há alguns anos. O cantor revelou que se despediu da música secular, “dessa vida” de trios elétricos e folia de Momo. Convertido há três anos e meio, Cid conta que não faz show há sete meses porque Deus tocou o seu coração. “Nos últimos dois carnavais cantei as letras das músicas de axé em geral, mas no coração tentava apaga-las”, confessa. Ano passado, após trocar a palavra “Diabo” por “Jesus Cristo” quando cantava “We are Carnaval”, refletiu ainda mais sobre a questão e decidiu deixar mesmo a folia. O álbum “Guerreiro de Deus”, então, foi produzido e será o primeiro dele no estilo gospel, a ser lançado em breve. Cid é uma exceção, pois o estrelato fala mais alto que a dedicação exclusiva a Deus para a maioria dos artistas que dizem amém às Igrejas e aos trios elétricos simultaneamente. Pedindo bênçãos, eles fazem axé sim, Senhor.


Foto 1 - Sergio Fernandes, da Chica Fé
Foto 2 - Mano Moreno integra, agora, o Terra Samba
Foto 3 - Épico no axé, Cid Guerreiro agora se dedica exclusivamente à música gospel


*matéria originalmente publicada no blog lupa.facom.ufba.br
*fotos de divulgação

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pássaro amarelo

É um amarelo que ofusca, irradia e ilude.
Sem antes avisar, toma conta e fica, se não à vista, na recordação.
É um azul que direciona, hipnotiza e umedece.
Mas não traça linha paralela. Não rente, desvia da reta e sai pontilhando... até que some.
É um verde vivo, rico e seco.
Imensidão de formas, sons e imagens que tardam, mas lembram: pássaros multicoloridos dessa enigmática terra batem asas e se extraviam no horizonte.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Alemão descobre o inferno no Brasil

A ambição fez Rodger Klingler ver além das belezas brasileiras. O horror o levou a escrever um livro biográfico chocante

As mais belas garotas, o sol mais relaxante e o baixo custo de drogas. Deslumbrado com uma nova realidade de vida que encontrara em terras brasileiras, Rodger Klingler decide se arriscar a fim de tirar proveito das facilidades que o país lhe oferecia. Da fria e úmida Alemanha, ele saia em direção a um paraíso ensolarado chamado Brasil. Mas o que encontrou foi um mundo sujo, corrupto e infernal. Em “Memórias do Submundo – um alemão desce ao inferno no Rio de Janeiro”, ele conta de forma biográfica seus quatro anos de reclusão nas penitenciárias de Água Santa, Galpão e Lemos de Brito, essa última, a maior do Estado da Bahia. A obra literária de 384 páginas, da Editora Best Seller, já está à venda.


Em sua terceira visita ao Rio de Janeiro, Rodger Klingler tinha um objetivo traçado: comprar um quilo de cocaína para contrabandeá-lo de volta para a Alemanha. Na tentativa de deixar o país, em 1984, ele foi detido e teve que encarar humilhações e aprender com a vida que levou nos quatro anos subseqüentes, o valor de um cobertor, de um colchão, de uma simples escova de dente e principalmente da honestidade. “Tem lugares neste mundo que a vida humana não vale nada. Mas no mesmo lugar também há amor, calor humano. Aprendi a sobreviver nos chãos e mais, a conviver com estas situações”, conta Klingler, diretamente de Ingolstadt, Alemanha, onde vive com sua esposa e uma filha de 13 anos. Lá, ele trabalha com jovens desajustados numa escola da cidade, perto de Munique.

Em sua passagem pelo maior complexo penitenciário da Bahia, ele já era experiente no assunto, pois havia estado por outras duas prisões. Por lá permaneceu cerca de dois anos e meio. E foi lá que conheceu o prof. Arthur, quem, segundo Klingler, o fez um homem honesto. “Na verdade, virei outro homem. De Saulus à Paulus.” Para o alemão, apesar de toda cadeia ter suas peculiaridades, todas são verdadeiros infernos, submundos. “Ninguém neste mundo merece uma coisa destas”, pontua. Sobre esse período de sua vida carcerária, relata um trecho de seu livro: “Aqui no Lemos de Brito a coisa era totalmente diferente do que eu havia conhecido até então. Eu não podia acreditar nos meus ouvidos quando, no meu primeiro sábado, logo depois das 14h, ouvi de repente vozes de mulheres no corredor. Podia ser verdade? Sim, estava certo. (...) Por mais que se pudesse ter uma impressão negativa dos presídios brasileiros, no que diz respeito a visitas eles eram substancialmente mais humanos que na Alemanha, onde é preciso se dar por satisfeito com apenas duas horas por mês, e isso com supervisão de um funcionário”.

Registro de tristes impressões
O livro começou a ser idealizado 15 anos atrás, uma década depois de sua prisão. Ele, que queria chamar a atenção para as condições dos presídios do país, conseguiu alcançar seu objetivo: a obra é chocante desde as primeiras páginas. “Como escritor, achei que a história valia a pena ser escrita. Também foi uma promessa que fiz ao prof. Arthur”, explica. Em apenas cinco meses escreveu a biografia, finalizando-a em 2004. Mesmo depois de ter registrado sua história na obra – certamente ele não se orgulha dela -, Klingler conta que seus familiares não o perdoaram pelo crime que cometeu. Sobre a saída da prisão e a tentativa de retorno ao convívio em sociedade, comenta: “foi duro porque tinha que organizar a minha vida novamente. Mas nos piores momentos, a gente cresce e aprende. O pior de tudo é que a minha família não quis saber mais de mim, até hoje. Paguei um preço muito alto pelo que fiz”.

Rodger Klingler ainda assim acredita na reeducação de um detento. Mas, para isso, o sistema prisional do Brasil precisa sofrer mudanças. “O governo tem que criar as circunstâncias para que isto possa virar realidade“, afirma. “Em Memórias do Submundo”, percebe-se o porquê. Corrupção, violência consentida e ódio acumulado são algumas das mazelas incessantemente alimentadas por um sistema desumano. Ressocialização? Página a página, o leitor vai entender, através de relatos detalhados, o motivo de carcerários brasileiros fugirem ou mesmo cumprirem suas penas e depois retornarem à sociedade mais violentos e perigosos. Para o alemão, a experiência foi uma dura lição aprendida. Enquanto o submundo parece ter lhe feito um ser humano melhor e mais forte, suas memórias são hoje seu impulso para dar rumos mais saudáveis à própria vida, é o que ele garante.


*matéria originalmente publicada na edição da Tribuna da Bahia do dia 10.10.09
*fotos por Edgar de Souza